Impressionante a profundidade com que Exupéry consegue tratar a realidade humana nesse clássico. Se posso me permitir essa ousadia, parece-me que o principal conceito abordado é a liberdade, no seu sentido mais amplo. É fácil ver como os vários personagens que o principezinho vai encontrando ao longo de sua viagem, seja o rei, o bêbado, o vaidoso, o acendedor de lampião ou o empresário, se tornaram escravos de suas autoimagens, de suas atribuições ou de seus hábitos. Ou ainda de como “os adultos” são reféns das convenções, não se permitindo imaginar (ou mesmo viver).
A liberdade do homem consiste exatamente em conseguir tornar qualquer coisa importante e essencial para si mesmo e, assim, se tornar o que quiser. Mais do que poder escolher, a liberdade é a essência da natureza humana. Por isso a famosa frase de Sartre “o homem está condenado a ser livre”, interpretada por Humberto Gessinger em “sem motivo nem objetivos estamos vivos e isso é tudo, é sobre tudo a lei”. De fato, tudo que é valioso para uma pessoa é uma construção, como diz a sábia raposa “foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante”. Contudo, pode-se fazer importante qualquer coisa, inclusive uma limitadora autoimagem de vaidoso ou diretor financeiro. Mais do que isso, pode se tornar angustiante a ideia de que as coisas não tem valor por si só, mas sim o valor atribuído por nós. Daí o vazio e a náusea de Sartre. Poder ser qualquer coisa é ao mesmo tempo incrível e angustiante. Mas nosso príncipe é otimista e vê nobreza naquelas construções que se baseiam no cuidado ao outro, numa mensagem de amor e espiritualidade “Mas se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim único no mundo.”.
Certa vez disse a um grande amigo que me incomodava o grande valor que eu dava a beleza, o que me sugeria certa futilidade. Ao que ele sabiamente respondeu que a beleza não era uma futilidade, mas uma virtude. Desde que o julgamento de beleza fosse meu e não um padrão, uma convenção social. Creio que a liberdade tem a ver com isso, descobrir a si mesmo. Os relacionamentos e sentimentos cultivados parecem especialmente reveladores.
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